Filosofia

 

Ações in (Tragédia em Aristóteles)

Fausto Nunes dos Santos
 
 

Resumo: Este trabalho procura trabalhar de maneira inicial com algumas nuâncias sobre o tema: A Imitação de uma Ação na Tragédia. Uso como base o artigo: “A definição de Tragédia como Imitação de uma Ação” do Prof. Dr. Fernando Gazoni. Procurei trabalhar somente com nexo de ligação entre ações e sua pertinência causal, abstraido o estudo de sua natureza (in Física de Aristóteles).

Palavras-chave: Ações. Antecedentes. Conexão

“Ação sf. ´atuação, ato, feito, obra´ / acção XVI, auçõXIV, auçon XIV, aaucçom XIV, etc”.

(CUNHA, A.G. da, dicionário etimológico da língua portuguesa, p. 6)

“Ante – pref., do lat. Antê, que se documenta em vocês. eruditos ou semieruditos, nas acepções de precedente, anterior (no tempo e no espaço)’, como antemanhã, antemuro, etc.”.

(ob. citada, p. 43)

“Para chegar à definição de tragédia, no capítulo 6 da Poética (segundo a paginação da edição de Bekker, que adoto doravante para me referir aos trechos do corpus aristotélico, a definição de tragédia está em I499 b24), Aristóteles estabelece seu gênero (ela é uma imitação, ou mimeses – I447 aI6), e sua diferença específica é obtida por meio da análise de três critérios de diferenciação que a distinguem de outras artes miméticas (a epopeia, a comédia, o ditirambo, a aulética e a citarística) que compartilham com ela esse mesmo gênero. (...)” (GAZONI, F. 2013, p.168) (grifos do autor).

“Mas parece haver certo lapso metodológico no bem construído edifício artistotélico. Pois deveríamos esperar, de acordo com o tratamento dado ao objeto de imitação, no capítulo 2, que a tragédia fosse definida como imitação de pessoas virtuosas (eventualmente, imitação de pessoas melhores que nós). Em vez disso, a tragédia é definida como imitação de uma ação virtuosa. Há um ator inesperado na definição, ou ao menos um ator travestido, com uma cara familiar, mas não exatamente a que esperávamos (...)” (ob. citada, p.169) (grifos do autor).

Da ação

No capítulo II da Poética de Aristóteles é dito que a imitação se aplica aos atos das personagens e estas podem ser senão boas ou ruins diferindo-se pela prática reiterada do vício ou da virtude; daí que as personagens são representadas melhores, piores ou iguais a todos nós. É também essa diferença que distingue a tragédia da comédia: uma se propõe a imitar os homens, representando-os piores; a outra os torna melhores do que são na realidade.

Neste sentido, pode-se dizer que a mimese é ambígua em Aristóteles, já que além de representar, ela promove uma espécie de estímulo do que está representando.

“Aristóteles, ao protagonizar a ação, estaria apenas dando acolhimento ao fato de que a tragédia é levada à cena diante do público e, portanto, envolve a ação dos atores. Definir a tragédia como imitação de uma ação não seria nada mais que recolhecer o caráter cinético (digamos assim) de sua representação. (...)” (ob. citada, p.170) (grifos do autor) (grifos nossos)

O representar não é o mesmo que imitar. O conceito aristotélico de mimese não significa mera imitação ou reprodução da realidade. A representação tem como objeto o mito, o caráter e o pensamento. Neste quesito, a qualidade moral (caráter) dos personagens é apenas consequência das ações. Em Aristóteles há superioridade da ação sobre o estado da personagem.

“É tese da ética aristotélica que a finalidade da vida, o bem supremo a ser alcançado, a felicidade humana, ou seja, a eudamonia reside antes na ação que em certo estado”.(...)

“Sim é verdade que a eudamonia é antes certa atividade que certo estado, mas a tragédia não é a representação dessa atividade eudaimônica, pelo contrário: ela não encena a virtude de Péricles, homem virtuoso, por exemplo, ma a desgraça de Édipo. Se conseguirmos justificar a protagonização da ação sem recorrer de maneira abusiva a teses da ética aristotélica, tanto melhor. Teremos respeitado a autonomia da Poética como tratado independente, sem recusar, entretanto, sua vinculação à ética.” (GAZONI, F. 2013, p. 171) (grifos do autor).

“(...) o texto grego não diz exatamente “imitação de uma ação”, mas sim “imitação de ação”. É lícito traduzir por “imitação de uma ação”, já que o original traz ´ação` no singular, mas a tradução acrescenta certa nuance ao grego antigo (...)” (ob. citada, p.172) (grifos do autor).

“A tragédia é a mimese de uma ação em que a virtude está implicada (...)” (Aristóteles, Poética, Cap. VI).

Assim, na obra de Aristóteles, um só agente pode praticar muitas ações, mas estas ações necessariamente não levam a uma unidade. Não se olvida, entretanto, em que havendo muitas ações e não ações únicas, isoladas e justapostas, estas podem compor o todo. Por exemplo, o mito é uma composição de ações formadas pela peripécia e o reconhecimento. A peripécia é a mutação de ações em sentido contrário e o recohecimento é a passagem do não recohecimento ao conhecimento; estas se dão em formas de ações múltiplas.

Ademais, na sua Ética é dado ao processo de deliberação das ações à definição do caráter voluntário em contraposição ao caráter involuntário da ação – vontade, capacidade de deliberação e de decisão. No livro X da obra Ética a Nicômano, a felicidade é definida como certa atividade (leio ação) da alma humana de acordo com a excelência completa. Cite-se:

“Dissemos, então, que a felicidade não era nenhuma disposição, pois, desse modo, poderia estar presente em que passasse toda a sua existência a dormir, tivesse uma vida de vegetal ou se encontrasse numa situação de extrema infelicidade. Mas, se estas consequências não satisfazem, e supusermos que a felicidade é mais uma certa atividade, tal como foi dito nas análises precedentes, [e que por sua vez] há atividades que são necessárias e escolhas como meios para fins, outras que são possibilidadess de escolhas em si próprias enquanto fins e não das que são meios para quaisquer outros fins, portanto a felicidade não careece de nada; basta-se a si própria” (Aristóteles, Ética a Nicômaco, Livro X, p. 223) (grifos nossos).

“Uma das possibilidades de se entender a definição da tragédia como imitação de uma ação é justamente supor que Aristóteles antecipa, na definição, a primazia do enredo sobre as restantes cinco partes da tragédia, caráter, pensamento, elocução, música e espetáculo. A unidade da ação é a unidade do enredo, e o enredo uno se compõe de várias ações que se seguem umas às outras por nexos de necessidade ou verossimilhança Isso explicaria o uso do singular na definição de tragédia como uma escolha prévia a ser detalhada na sequência do texto.” (GAZONI, F. 2013, pp. 173/174) (grifos do autor).

“Pode-se argumentar que quando nos referimos a pessoas que agem está implícita a noção de ação (mais do que quando vertemos o particípio presente pelo substantivo “agentes”) e, portanto, não haveria problema algum em considerar o capítulo 2 como a origem da definição de tragédia como imitação de uma ação. (...)” (ob. citada p. 175) (grifos do autor).

“(...) Aristóteles tem como tese que o enredo é o elemento principal da tragédia, sabe que a peripécia e o reconhecimento, que são partes do enredo, são os disposiitvos mais aptos a mover a alma dos espectadores, que um bom enredo é capaz de suscitar medo e piedade e levar à catarse dessas emoções (qualquer que seja o sentido que queiramos dar a essa célebre e controversa frase). E o enredo é a ação una que resulta da composição de ações menores encadeadas umas às outras por necessidade ou verossimilhança. Daí, a protagonização da ação em detrimento do caráter.” (ob. citada pp.176/177).

A tragédia por implicação é uma ação vinculada ao enredo porque o enredo é uma imitação da ação. Em apertada síntese, a trama é o conjunto dos atos individuais. É no enredo, que é a mimese da ação, que vamos acompanhando o personagem, e, para isso, a concatenação dos fatos a que se submete e que produz o herói tem que estar ordenado de forma lógica para dar o resultado da catarse.

“Aristóteles ensina que a tragédia é a imitação de uma ação que nos traz experiências emocionais de tal vigor, que provocam a purificação por sua vivência(...) (GAZOLLA, 2001, p. 39)”

 (...) “A tragédia é a mímese de uma ação em que a virtude está implicada, ação que é completa, de certa extensão, em linguagem ornamentada, com cada uma das espécies de ornamento diversamente distribuída entre as partes, mímese realizada por personagens em cena, e não por meio de uma narração, e que, por meio da piedade e do temor, realiza a cartarse de tais emoções” (Aristóteles, in gazoni)

Embora vinculada ao enredo, a ação é voluntária. Voluntariedade, por seu turno, não é escolha. Cite-se:

“Uma ação escolhida é sempre uma ação voluntária, mas nem toda ação voluntária é escolhida. Isso significa que no gênero das ações voluntárias, a escolha é somente uma espécie. A duiscussão que Aristóteles faz de escolha, seja na Ética a Nicômano ou na Ética a Eudemo se dá em meio da discussão sobre a voluntariedade ou involuntariedade de uma ato. (...) A definição de involuntário permite que tenhamos a primiera definição de voluntário. Um ato é voluntário quando

 i – o agente tem o princípio da ação interno e

 ii – se ele atua com conhecimento e sua ação  (...)

Aristóteles considera o agente como causa da ação e seria responsável pela ação justamente na medida em que a causa. Em Metafísica V, 2, 1013a 31, o terceio sentido de “causa” diz: “ A causa é ainda o princípio primeiro da mudança e do repouso: o autor de uma decisão é causa da ação...”[1]

Em Gazoni:

“Uma ação para ter determinada qualidade:

a. deve ser realizada por um agente que tem conhecimento do que faz;

b. O agente deve ter escolhido a ação, e ela deve ter sido escolhida por ela mesma;

c. O agente deve tê-la escolhido de maneira estável e segura15

(...) O a agente tem uma marrgem de liberdade para sua ação(...)”[2]

Mesmo que não escolhida indaga-se se a ação humana é necessária. Se não necessária, ela ainda pode ocorrer pelo nexo causal da ação, que deve ser pelo menos possível, sob pena de quebra dos fatos antecedentes necessários (ou possíveis) que dá inteireza e completude a tragédia, ou melhor, verifica-se que a questão da ação está implicitamente ligada a complexidade da análise das ações na tragédia.

“Uma vez que aqueles que realizam a mímese realizam a mímese de pessoas que agem, e essas forçosamente são virtuosas ou viciosas (pois o caráter quase sempre segue apenas estes registros: pois todos se diferenciam pelo caráter e pela virtude)(...)” (Aristóteles, Cap. II in A Poética de Aristóteles: tradução e comentários, ob. Citada, p. 35) (grifos nossos)

Também na verossimilhança ou em melhores termos, na representação do verossímil pode se dar a mimese - em que o objeto da representação não é o que aconteceu, mas o que poderia acontecer - isto é, o possível. Esta coerência interna se dá pelo conjunto imagético e pelas situações recriadas, ou seja, a contrução do verossímil também é plural e se dá pela concatenação de ações possíveis.

“A ação que Aristóteles se refere na definição de tragédia não é uma ação qualquer, não é apenas um movimento, ela carrega as marcas das observações éticas do capítulo 2”. Trata-se de uma ação eticamente relevante praticada por um agente dotado de certo caráter moral. Isso não quer dizer necessariamente uma ação eticamente virtuosa, mas uma ação tal como é considerada a práxis aristotélica nos seus tratados éticos. (...) (ob. citada, p. 185) (grifos do autor) (grifos nossos)

Assim, por exemplo, o rei Édipo de Sófocles não está em um drama donde o caráter do herói trágico cai em desgraça por uma falha trágica, mas sim, um jogo de ações em que o movimento que se dá da ignorância para o conhecimento e que resulta no infortúnio do herói. Ademais, quanto a ação manifestada pelo desejo (actio in causa), temos que:

“Toda ação, ademais, depende da coisa que se deseja, sem o que não há boulé. A relação entre as coisas que são passíveis de serem desejadas, bem como aquelas desejadas pelo agente dentre as desejáveis, e a ação efetiva desse agente formarão o núcleo da ação moral. A força da coisa desejada e o impulso desejante para ela – provocadores, ambos do desejo já percebido e da posterior ação que procura cumpri-lo...” (GAZOLLA, R, 2001, p. 73)

Também as profecias na tragédia informam os pensamentos e planos dos deuses, que quiçá são traduzidas também em ações, pois os deuses se exercitam sobre os homens.

Dos Antecedentes e do Prévio

Toda ação é interpretada de acordo com o caráter atribuído a cada personagem. Também não se pode olvidar das expectativas que se fazem esperar daquilo que se deverá ver e entender, através de ações que se desenrolam e se concatenam com seus antecedentes.

Cite-se:

“Há sempre uma razão maior que, se não justificada, pelo menos fornece alguma explicação ao expectador. Em grande parte dos casos, é o desenrolar lógico de antecedentes por si já calamitosos que se constituirão como desencadeadores da tragédia. Parece ser simplória a constatação de que o fato elucidativo da ação pode ser um fator externo ao enredo da trama. Mais ilustrativo para demonstrar tal situação é a história de Édipo Rei, cujo fator causal dos flagelos de seu destino reside também no que já havia sido profetizado para ele e n o fato de ter sido amaldiçoado, inclusive em suas futuras gerações. Isso é os flagelos de seu destino residem num fator externo ao desenvolvimento do enredo da peça. Esse encadeamento acaba por nos revelar, de um lado, certo senso de justiça e, de outro, certa intenção moral, educativo, no sentido estético, do tragediógrafo.” (PALHARES, 2003, p.17) (grifos nossos).

Em Peter Szondi, em sua Obra: Ensaio sobre o Trágico, quando analisa algumas obras clássicas, nos é possível abstrair os seguintes exemplos de antecedentes:

- Na obra Édipo Rei de Sófocles, podemos usar como exemplo de antecedentes necessários a fala do oráculo por três vezes, primeiro para Laio, depois para seu filho e finalmente para Creonte e, pois, por três vezes o oráculo antecede a ação dos homens fazendo eles próprios o que lhes fora imposto. A fala do Oráculo é ação, e é necessária à contrução do fim trágico do herói.

- Em Otelo de Shakespeare, o fato de sua esposa ter se desfeito de seu laço que depois vê com Cássio serve para Otelo de prova de infidelidade, é o antecedente na trama que faz com desconfie de Desdêmona e se torne um assassino. Tudo se passa dentro de um contexto de ações interligadas e necessárias.

“Na Medeia de Eurípedes, Medéia de sente abandonada, largada, humilhada depois de tudo que ela fez para ajudar Jasão. Esta é a razão antecedente e por consequência, tira do herói sua descendência, matando seus filhos.”[3] (grifos nossos)

“Medeia sabe o que faz, tem deliberação faz, tem deliberação (dentro do que lhe é possível) sobre suas ações; não está, nesse momento, cega pelos impulsos, não está sendo levada a agir sem refletir como é o caso da situação amorosa de alguns personagens trágicos(...)” (GAZOLLA, R, 2001, p. 131)

A tragetória em ação de Medéia é mais importante do que a caracetização do personagem. O desenvolvimento da peça transcorre dentro de uma necessidade fatídica em que os fatos se relacionam sempre em conexidade. Assim, e não de outra forma, a vingança de Medéia que ama Jasão, que por sua vez ama “o trono de Corinto” formam antecedentes necessários da natureza sanguinária da personagem.

Podemos exemplificar também as ações éticas, seus antecedentes lógicos e necessários pela sequência que se desenrola de pari passo na tragédia. Ressaltando as precedências e consequências das ações, usemos como exemplo o Canto XIX da Odisséia, em que Ulisses após 20 anos, retorna ao seu palácio, transfigurado em mendigo, para tomar de volta o que é seu, no momento, usurpado pelos pretendentes de Penélope, sua mulher:

Peça: “Têlemaco é preciso guardar as marmas de guerra (...)” (ação) <nexo causal> “Tirei-as para longe da fumaça(...)” (motivação da ação e ação) > “Obedeceu ao pai amado (...)” (ação) > “Ama, faz como eu digo e fecha as mulheres nos seus quartos (...)” (motivação da ação e ação) > “Enquanto em guardo na câmara de tesouros as belas armas (...)” (ação) e assim segue a trama com suscessivos verbos que exprimem ações humanas. Vê-se que a ação é preponderante sobre o caráter. Este é secundário dado à descrição do modus de ação dos personagens. Em termos aristotélicos, o poeta imita ações e estas se dão pelo encadeamento causal que estrutura a ação pelo verossímimel (provável) e o necessário (lógico), tudo, sem peder a unidade de ação, ou melhor, de partes integrantes do todo.

Retornando a peça Édipo Rei são verificadas as mesmas características estruturais da ação presente em diversas tragédias. Vejamos, agora, à análise da ação fora da literalidade do texto (do Prólogo até o Estásimo – Chegada de Jocasta):

- Ação: Édipo apresenta-se como salvador de Tebas <nexo causal > Ação: Manda seu cunhado Creonte ao Oráculo de Delfos > Ação: O Oráculo ordena a expulsão do ser imundo que vive em Tebas <nexo causal> com a irônia trágica (matará o pai e se casará com a mãe) <nexo causal> Édipo age: Amaldiçoa o ser imundo para que a maldição recaia sobre ele caso seja o assassino > Ação > Ao ser chamado, o advinho Tirésias revela que de fato Édipo é o assassino de laio e esposará a mãe > Ação > Tirésias é expulso da cidade.

Assim, a trama da tragédia é linear, os segmentos lembram, por si só, toda a história em si, independente do trecho em que se está encenando/assistindo. Também em razão da continuidade dos fatos não se é possível duas histórias/ dois heróis ocorrendo/agindo ao mesmo tempo num determinado espaço/tempo histórico. A história acompanha o herói na sua tragetória numa sequência concatenada de ações.

Ressalte-se que além das ações serem antecedentes ou prévias em contexto de encadeamento lógico dentro do enredo, é fundamental que ela não seja somente anterior. Assim, vejamos:

“Antecedente, anterior, precedente, prévio – Antecedente é o que antecede. O que está anteriormente, influindo, sendo causa: Apanho tísica com a pneumonia antecedente. Anterior é simplesmente o que está antes, no tempo ou no espaço, indeterminadamente, com intercalações ou sem elas: 7 e 6 são anteriores a 8. Precedente é o que precede, o que vem anteriormente, sem idéia (sic) de influência na causa, sem intercalações: 7 é precedente a 8. Prévio, além de anterior, é necessário, indispensável: Não faça o negócio sem prévio conhecimento das condições da praça.” (NASCENTES, p. 84) (grifos nossos).

Conclusão

Quando se dispõe sobre ações antecedentes ou prévias, denota-se que dentro do enredo estas estejam concatenadas - um fato anterior deve ser a causa ou concausa de um fato posterior - O nexo de causalidade é a liame em virtude do qual são gerados os efeitos entre causas. A ideia remonta a Aristóteles em que qualquer evento é originado por uma causa, tendo três condições:

- “a” deve acontecer antes de “b”,

- “b” deve acontecer antes de “c”;

- e estes tem que devem estar póximos no tempo e espaço.

Cite-se:

“Ficou estabelecido por nós que a tragédia é a mimese de uma ação completa, inteira e que tem certa extensão – pois pode existir aquilo que é inteiro e não tem extensão alguma. Inteiro é o que tem começo, meio e fim. Começo é aquilo que, considerado em si mesmo, por antureza tem antecedente, ou de maneira necessária ou no mais das vezes, mas a que nada se segue; meio é aquilo que, considerado em si mesmo, não só tem antecedente como também antecede algo. Os que dão bom arranjo aos enredos não devem, portanto, nem começar de um ponto ao acaso, nem finalizar onde quer que seja, mas sim, fazer uso desses conceitos mencionados.” (Aristóteles, Cap. VII in A Poética de Aristóteles: tradução e comentários, ob. Citada, p. 60-61)

A tragédia é a imitação de uma ação que implica agentes que necessariamente possuem certas qualidades distintivas de caráter e pensamento; é por isso que qualificamos as ações em si, sendo o arranjo correto dos incidentes anteriores e posteriores na trama o fundalmental e necessário para o perfeito desenrolar da história.

 

Referências
ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. Tradução do Grego de António de Castro Caeiro. São Paulo: Editora Atlas, 2009.
BRANDÃO, J. de S.B. Teatro Grego: Tragédia e Comédia. 2ª edição. Petrópolis: Vozes, 1984;
COSTA, L.M. da, A Poética de Aristóteles – Mímese e verossimilhança. Série Princípios 217. São Paulo: Editora Ática, 2017;
CUNHA, A.G. da, Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4ª edição. Rio de Janeiro: Lexikon, 2010;
GAZOLLA, R. Para não ler ingenuamente uma tragédia grega. São Paulo: Edições Loyola, 2001;
GAZONI, F. A definição de tragédia como imitação de uma ação. Terceira Margem (on line). Ano XVII. N. 27 / Jan.—Jul.. 2013.
NASCENTES, A. Dicionário de Sinônimos. 3ª edição. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1981;
PALHARES, C. V. T. A mimese na Poética de Aristóteles. Belo Horizonte: Cadernos CESPUC, n. 22. 2013;
SZONDI, P. Ensaio sobre o Trágico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2004.
 
Notas
[1] A Responsabilidade Moral pela Ação e pelo Caráter em Aristóteles, relatório final apresentado em Julho de 2008 – para obternção do título de Mestre de Fernando Martins Mendonça – Orientador: Dr. Alcino Eduardo Bonella. Universidade Federal de Uberlândia.
[2] GAZONI, Fernando Maciel. A Poética de Aristóteles: tradução e comentários.Tese apresentada para obtenção do título de Mestre em Filosofia. Universidade de São Paulo – FFLCH - São Paulo. 2006
 

Informações Sobre o Autor

Fausto Nunes dos Santos

Servidor Público Federal Analista Judiciário - Bacharel em Direito. Especialista em Direito Administrativo. Especialista em Direito Contratual. Pós-Graduando Lato Sensu em Filosofia

 
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Informações Bibliográficas

 

SANTOS, Fausto Nunes dos. Ações in (Tragédia em Aristóteles). In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XXI, n. 168, jan 2018. Disponível em: <http://ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=20074>. Acesso em dez 2018.


 

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