Filosofia

 

Reflexões sobre o real e o imaginário

Hugo Garcez Duarte
 
 

Resumo: A medida da vida não se restringe à economia.

Palavras-chave: Contemporaneidade. Real. Imaginário.

Abstract: The measure of life is not restricted to economics.

Keywords: Contemporaneity. Real. Imaginary.

José Luiz Quadros de Magalhães, em O encobrimento do real: poder e ideologia na contemporaneidade que, publicado no ano de 2008, se mostra atualíssimo, promoveu uma reflexão sobre poder, ideologia, irreal e real em âmbito global e também no Estado brasileiro.

Para apresentar suas ideias fomenta (MAGALHÃES, 2008) uma série raciocínios, os quais podem ser enumerados da maneira arrolada abaixo.

a) Quais são os reais jogos de poder que se escondem por detrás das representações do mundo contemporâneo?

b) A representação do mundo é fundamental para a manutenção das relações sociais, desde as comunidades primitivas até os nossos dias complexos. Representar é significar.

c) A representação pode ajudar a compreender as relações de poder ou pode ajudar a encobri-las.

d) O poder do Estado necessita da representação para ser exercido e, neste caso, a representação sempre mostra algo que não é, algumas vezes do que deveria ser, mas, em geral, propositalmente o que não é.

e) Tem poder quem domina os processos de construção dos significados dos significantes.

f) Tem poder quem é capaz de tornar as coisas naturais, a automatização das coisas engole tudo.

g) Cotidianamente repetimos palavras, gestos, rituais, trabalhamos, sonhamos, muitas vezes sonhos que não nos pertencem.

h) A automação impede de pensar. Repete-se e simplesmente repete-se. Não há tempo para pensar. Não há porque pensar. Tudo já foi posto e até o sonho já está pronto. Basta sonha-lo. Basta repetir o roteiro previamente escrito e repetido pela maioria.

i) Tem poder quem é capaz de construir o senso comum. Tem poder quem é capaz de construir certezas e logo preconceitos. Se se tem certeza não há discussão. O preconceito surge da simplificação e da certeza.

j) A dominação passa pela simplificação das coisas: o bem e o mal; a democracia e o fundamentalismo; o capitalismo e o comunismo.

k) Duas técnicas comuns neste processo de dominação são a nomeação de grupos, criando identidades ou identificações e a explicação de uma situação complexa por meio de um fato particular real. O problema não é que o fato particular seja real, o problema consiste na explicação de algo complexo com um exemplo particular que mostra uma pequena parte do todo que ele quer explicar. É comum assistir a este tipo de geração de preconceito na mídia diariamente. 

l) Este poder encoberto pela representação distorcida (propositalmente distorcida) funda-se em ideologias, em mentiras.

m) A grande mentira na qual a sociedade encontra-se envolta é do mercado, da liberdade econômica fundada numa naturalização da economia como se esta não fosse uma ciência social mas uma ciência exata. A matematização da economia sustenta a insanidade vigente.

n) A despolitização do mundo é uma ideologia recorrente utilizada pelo poder econômico manter sua hegemonia.

A partir desses conceitos, o autor lança mão de um raciocínio que focaliza um binômio, por vezes (ou sempre?) antagônico, direitos humanos fundamentais x economia. Segundo o constitucionalista:

“Uma expressão que ideologicamente o poder insiste em mostrar como apolítica é a expressão “Direitos Humanos”. Os direitos humanos são históricos e logo políticos. A naturalização dos Direitos Humanos sempre foi um perigo pois coloca na boca do poder quem pode dizer o que é natural o que é natureza humana. Se os direitos humanos não são históricos mas são direitos naturais quem é capaz de dizer o que é o natural humano em termos de direitos? Se afirmamos os direitos humanos como históricos, estamos reconhecendo que nós somos autores da história e logo, o conteúdo destes direitos são construídos pelas lutas sociais, pelo diálogo aberto no qual todos possam fazer parte. Ao contrário, se afirmamos estes direitos como naturais fazemos o que fazem com a economia agora. Retiramos os direitos humanos do livre uso democrático e transferimos para um outro. Este outro irá dizer o que é natural. Quem diz o que é natural? Deus? Os sábios? Os filósofos? A natureza?” (MAGALHÃES, 2008, p. S.N.).

José Luiz Quadros de Magalhães, ao que parece, tem razão, já que a economia tem se apresentado como algo sagrado no mundo contemporâneo. Perceba-se, tudo é economia! Se a economia está bem, tudo está bem; se a economia vai mal, tudo está mal! Seria a economia o “Deus” deste tempo?

O autor (MAGALHÃES, 2008), nesse quadrante, lança mão das construções teóricas de Giorgio Agambem para refletir sobre o tema sacralização e a profanação, aduzindo que as coisas consagradas aos deuses são subtraídas do uso comum, do uso livre das pessoas, sendo, portanto, sacrilégio, violar a indisponibilidade da coisa consagrada.

Ao contrário, profanar, segundo este, significa restituir a “coisa” ao livre uso das pessoas. Assim, a “coisa” restituída é pura, profana, liberada dos nomes sagrados, e logo, livre para ser usada por todos. A “coisa” restituída ao livre uso é pura no sentido que não carrega significados aprisionados, sacralizados (MAGALHÃES, 2008).

Se apresenta interessante, assim, pensar em que medida o capitalismo, a propriedade privada e, em última instância, a economia, se tornaram sagradas na contemporaneidade, já que:

“O processo de sacralização ocorre com a junção do rito com o mito. É pelo rito que simboliza um mito que o profano se transforma em sagrado. Os sacrifícios são rituais minuciosos onde ocorre a passagem para outra esfera, a esfera separada. Um ritual sacraliza e um ritual pode devolver ou restituir a coisa (ideia, palavra, objeto, pessoa) à esfera anterior. Uma forma simples de restituir a coisa separada ao livre uso é o toque humano no sagrado. Este contágio pode restituir o sagrado ao profano. [...] A função de separação, de consagração, ocorre nas sociedades contemporâneas em diversas esferas onde o recurso ao mito juntamente com rito cumpre uma função de separação, de retirada de coisas, ideias, palavras e pessoas do livre uso, da livre reflexão, da livre interlocução, criando reconhecimentos sem possibilidade de diálogo. A religião como separação, como sacralização, há muito invadiu a política, a economia e as relações de poder na sociedade moderna. O capitalismo de mercado é uma grande religião que se afirma com a sacralização do mercado e da propriedade privada. As discussões que ocorrem na esfera econômica são encerradas com o recurso ao mito para impor uma ideia sacralizada a toda a população. No espaço religioso do capitalismo não há espaço para a racionalidade discursiva pois qualquer tentativa de questionar o sagrado é sacrilégio. Não há razão e sim emoção no espaço sacralizado das discussões de política econômica. Por isto os proprietários reagem com raiva à tentativa de diálogo, pois para eles este diálogo é um sacrilégio, questiona coisas e conceitos sacralizados há muito tempo” (MAGALHÃES, 2008, p. S.N.).

Como exemplo do que aludiu, o autor (MAGALHÃES, 2008) aponta constatações relacionadas a rituais atrelados ao Estado como a posse de um Juiz de Direito, de um Presidente da República, a formatura, a ordenação de padres e outros rituais “mágicos”, os quais transformam as pessoas em poucos minutos, separando-a do momento anterior ao ritual para uma nova pessoa após o ritual.

Essas solenidades ganham tanta força na atualidade que a maioria esmagadora que frequenta um curso superior hoje não pretende adquirir conhecimentos. O período atravessado nos bancos escolares não é utilizado para saber-se, crescer intelectualmente, e/ou, bem preparar-se para ser um bom profissional, mas para cumprir créditos (até a linguagem é econômica) para no final passar pelo rito que o transformará de maneira mágica em uma nova pessoa (MAGALHÃES, 2008).

Em outras palavras, almeja-se o rito, a certificação da passagem por meio do diploma e não a aquisição do conhecimento. O espaço universitário está sendo transformado pela religião capitalista em algo mágico, onde o conhecimento a ser adquirido no decorrer de um processo que deveria ser transformador perde importância em relação ao rito (a formatura) e o mito (o diploma) (MAGALHÃES, 2008).

É de se destacar, como afirmado noutro local, enfatiza Giorgio Agamben[1]:

“o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.  Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro.  O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gera a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo” (AGAMBEN, 2012, p. S.N.).

O mundo dos fatos demonstra, realmente, que o capitalismo prega a busca pela mansão, pelo carrão caro e potente, pelo telefone celular que faz de tudo, pela maior e mais fina televisão na versão 3D, pelos melhores ultrabooks, notebooks, ipod’s, iphone’s, ipad’s, tablet’s, pelas roupas de grife com preços astronômicos e inacreditáveis etc.

Por outro lado, a comuna do consumo em sua dimensão de culto ao corpo e busca pela aparência “perfeita” apregoa que o homem ideal deve ser alto, forte e bem vestido. O estereótipo feminino reivindica que a mulher tenha cabelos lisos, seja bem vestida, magérrima ou “sarada” e cheia de curvas voluptuosas, na melhor versão panicat. Dessa forma, “o discurso “narcísico-consumista” da sociedade atual produz “ídolos fortemente sexualizados em imagens do dever ser homem e dever ser mulher”” (VAZ, 2004, p. 127). 

O ideal atribui, sobretudo, ao perfil e à posse dos bens, acima delineados, o caminho para reconhecimento e sucesso; o pré-requisito por melhores empregos, muito dinheiro, glamour, grandes amigos, tratamento cordial e convites para os mais importantes, famosos e badalados eventos; a conquista de viagens inacreditáveis e momentos inesquecíveis, além de uma vida amorosa e sexual digna dos filmes de Hollywood. Enfim, que com esses atributos tudo se torna mais fácil, alcançando-se a felicidade plena por meio do possuir, o qual proporcionará tudo o que há de melhor.

Em outras palavras, conforme José Luiz Quadros de Magalhães:

“O capitalismo é mostrado por vários autores como um espaço de secularização dos processos de sacralização. Max Weber mostra o capitalismo como secularização da fé protestante; Benjamin demonstra que o capitalismo se constitui em um fenômeno religioso que se desenvolve de forma parasitária a partir do cristianismo. [...] Para Giorgio Agambem o capitalismo tem três fortes características religiosas específicas: [...] a) É uma religião do culto mais do que qualquer outra. No capitalismo tudo tem sentido relacionado ao culto e não em relação a um dogma ou idéia. O culto ao consumo; o culto a beleza; a velocidade; ao corpo; ao sexo; etc. [...] b) É um culto permanente sem trégua e sem perdão. Os dias de festas e de férias não interrompem o culto, mas, ao contrário o reforça. [...] c) O culto do capitalismo não é consagrado à redenção ou a expiação da falta uma vez que é o culto da falta. O capitalismo precisa da falta pra sobreviver. O capitalismo cria a falta para então supri-la com um novo objeto de consumo. Assim que este objeto é consumido outra falta aparece para ser suprida. O capitalismo talvez seja o único caso de um culto que ao expiar a falta mais torna a falta universal” (AGAMBEN, 2012, p. S.N.).

 

Referências
AGAMBEN, Giorgio. Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro. [16. Agosto. 2012]. Entrevistadora: Peppe Salvà. Entrevista concedida a Ragusa News. Trad. de Selvino  J. Assmann. Disponível em: < http://www.ihu.unisinos.br/noticias/512966-giorgio-agamben>. Acesso em dez de 2012.
LEITE, Alessandro da Silva; DUARTE, Hugo Garcez Duarte. Ethos capitalista e criminalidade: sujeito desviante ou (in) efetividade dos direitos humanos? In: Revista Direito & Paz – Unisal – Lorena/SP – Ano XV – Nº 29 – 2º Semestre/2013 – pp. 561-590. 
MAGALHÃES, José Luiz Quadros de. O encobrimento do real: poder e ideologia na contemporaneidade. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XI, n. 50, fev 2008. Disponível em: <
http://www.ambitojuridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=4555&revista_caderno=27>. Acesso em ago 2017.
VAZ, Alexandre Fernandez. Corpo e indústria cultural: notas para pensar a educação na sociedade contemporânea. In: ZUN, Antônio A. S., PUCCI, Bruno e RAMOS-DE OLIVEIRA, Newton (org.). Ensaios frankfurtianos. São Paulo: Cortez, 2004, p. 117 a 135.
 
Nota
[1] Fomentamos essas ideias em: LEITE, Alessandro da Silva; DUARTE, Hugo Garcez Duarte. Ethos capitalista e criminalidade: sujeito desviante ou (in) efetividade dos direitos humanos? In: Revista Direito & Paz – Unisal – Lorena/SP – Ano XV – Nº 29 – 2º Semestre/2013 – pp. 561-590.

 

Informações Sobre o Autor

Hugo Garcez Duarte

Mestre em Direito pela UNIPAC. Especialista em direito público pela Cndido Mendes. Coordenador de Iniciação Científica e professor do Curso de Direito da FADILESTE

 
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Informações Bibliográficas

 

DUARTE, Hugo Garcez. Reflexões sobre o real e o imaginário. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XXI, n. 171, abr 2018. Disponível em: <http://ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=20317>. Acesso em out 2018.


 

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Informações Bibliográficas

 

DUARTE, Hugo Garcez. Reflexões sobre o real e o imaginário. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XXI, n. 171, abr 2018. Disponível em: <http://ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=20317>. Acesso em out 2018.